A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de suspender medicamentos que contenham clobutinol acendeu um alerta sobre o risco de arritmias cardíacas graves associadas à substância presente em xaropes para tosse. O composto, utilizado principalmente para tratar a tosse seca, foi retirado do mercado após avaliação de que os riscos cardiovasculares superam os possíveis benefícios. Em entrevista ao portal LeoDias, o cardiologista Dr. Cristiano Pisani, especialista em eletrofisiologia e presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, explicou como essas alterações no ritmo do coração podem colocar a vida do paciente em risco.
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Segundo o especialista, arritmia cardíaca é qualquer alteração no funcionamento normal dos batimentos do coração. Embora existam casos considerados benignos, algumas arritmias podem ser extremamente perigosas.
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“A arritmia cardíaca é qualquer mudança no ritmo do coração. Existem arritmias benignas que não oferecem risco à pessoa, mas há arritmias que podem fazer o coração bater muito rápido, chegando a mais de 300 vezes por minuto. Isso faz com que o coração pare de funcionar corretamente, podendo levar a óbito”, afirmou.
O médico explicou que o clobutinol interfere diretamente no sistema elétrico do coração. Segundo ele, após cada batimento, o órgão precisa de um breve período de recuperação elétrica para retornar ao estado normal. A substância altera justamente esse mecanismo.
“O clobutinol, usado em xaropes antitussígenos, provoca uma alteração na função elétrica das células cardíacas. Depois do batimento, o coração precisa de um tempo de repouso para que sua estrutura elétrica volte ao normal. O clobutinol prolonga esse retorno, fenômeno chamado de prolongamento do intervalo QT”, explicou.
Ainda de acordo com Dr. Cristiano Pisani, essa alteração pode desencadear uma arritmia muito grave chamada fibrilação ventricular, condição capaz de causar parada cardíaca.
“Em algumas situações, esse prolongamento pode causar aceleração e perda da organização do ritmo cardíaco, chamada de Fibrilação Ventricular, que, se mantida, pode resultar em parada cardíaca”, alertou.
Entre os sintomas mais comuns relacionados ao problema estão palpitações, sensação de coração acelerado e batimentos irregulares. Porém, nos casos associados ao clobutinol, os sinais mais preocupantes são desmaios repentinos.
“As arritmias cardíacas podem se manifestar de diversas formas, como sensação de coração acelerado ou descompassado. Mas, no caso da arritmia ligada ao clobutinol e ao prolongamento do intervalo QT, o sintoma mais comum são desmaios e até parada cardíaca”, destacou.
O especialista ressaltou que esse tipo de complicação costuma ocorrer em pessoas com predisposição genética conhecida como Síndrome do QT Longo, condição rara identificada por alterações no eletrocardiograma.
“As arritmias relacionadas ao uso do clobutinol aparecem em pessoas que já têm uma predisposição, chamada de Síndrome do QT longo. Essa é uma condição rara, geralmente de origem genética”, explicou.
Apesar da gravidade, o médico destacou que os casos sempre foram considerados raros, o que justificou a permanência da substância no mercado por tantos anos. Ainda assim, ele considerou correta a decisão da Anvisa de retirar os medicamentos de circulação.
“Como existem alternativas mais seguras, a suspensão do medicamento foi uma medida extremamente adequada da Anvisa”, avaliou.
Dr. Cristiano Pisani também esclareceu que o risco de arritmia não estava necessariamente relacionado ao uso prolongado do medicamento. Segundo ele, pessoas predispostas poderiam apresentar alterações mesmo em tratamentos de curta duração.
“O risco de arritmia pode ocorrer mesmo em tratamentos curtos em pessoas predispostas, e também está ligado à dose utilizada”, disse.
O cardiologista tranquilizou pacientes que já usaram o medicamento anteriormente e afirmou que, após a interrupção do uso, o risco deixa de existir.
“As pessoas que utilizaram a medicação no passado ou recentemente não precisam se preocupar, não sendo necessária avaliação médica nem exames cardíacos por esse motivo”, afirmou.
Ele orienta, porém, que pacientes que apresentem sintomas como palpitações, desmaios, falta de ar, cansaço ou sensação de coração acelerado procurem avaliação médica especializada.
“Todas as pessoas que tenham palpitações, sensação de batimento acelerado, desmaios, cansaço ou falta de ar devem procurar atendimento com um cardiologista ou arritmologista para uma avaliação detalhada e diagnóstico adequado”, concluiu.



