Os irmãos Kim Il-hyeok e Kim Yi-hyeok passaram mais de dez anos planejando uma fuga da Coreia do Norte. A travessia aconteceu em 6 de maio de 2023, quando os dois reuniram sete familiares e cruzaram o Mar Amarelo em um barco de pesca até chegarem à Coreia do Sul.
Entre os passageiros estavam duas crianças de 4 e 6 anos escondidas em sacos de estopa, além da esposa grávida de Kim Il-hyeok, que estava no quinto mês de gestação. Segundo ele, a mulher inicialmente não queria deixar o país. “Ela estava especialmente preocupada em fazer isso grávida. Continuei tentando convencê-la, dizendo que precisávamos ir para a Coreia do Sul pelo bem da criança. Perguntei se ela queria que nossos filhos crescessem em um país como aquele. No fim, ela concordou e decidimos fugir juntos”, contou à CNN.
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A ideia da fuga começou ainda com o pai da família, anos antes da travessia. Segundo Kim Il-hyeok, o patriarca dizia que “não havia esperança” no país e incentivava os filhos a buscarem uma vida na Coreia do Sul.
Para colocar o plano em prática, o irmão mais novo começou a trabalhar na costa norte-coreana e aprendeu a operar barcos de pesca. Ao longo dos anos, os dois passaram a navegar perto da fronteira marítima entre as Coreias como forma de criar um álibi diante das autoridades.
Segundo Kim Il-hyeok, eles estudaram o comportamento das patrulhas marítimas e aproveitaram dias de tempestade e baixa visibilidade para testar possíveis rotas de fuga. “Calculamos tudo. As patrulhas chegavam mais rápido durante o dia e mais devagar à noite, principalmente em dias de mau tempo. Testamos isso várias vezes”, afirmou.
Na noite da travessia, as mulheres da família precisaram atravessar um campo minado até chegarem ao ponto onde o barco estava escondido. Segundo Kim, na Coreia do Norte mulheres não podem embarcar legalmente em embarcações sem despertar suspeitas de tentativa de fuga.
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A família também levou as cinzas do pai durante a viagem. Para evitar serem detectados pelos radares, o barco seguiu lentamente pelo mar durante a madrugada. “Todos estavam completamente em silêncio. O barulho mais alto era o motor do barco”, relembrou.
As crianças permaneceram escondidas durante parte do percurso. “Quando abrimos os sacos, elas estavam com os olhos arregalados e não tinham feito nenhum barulho. Foi algo impressionante”, disse.
Após cerca de duas horas de navegação, o grupo entrou em território sul-coreano e foi abordado pela Marinha da Coreia do Sul. Segundo Kim, a família informou imediatamente que estava deixando a Coreia do Norte em busca de refúgio. “Parecia que um enorme peso tinha saído das minhas costas”, afirmou.
Quatro meses após a chegada à Coreia do Sul, a esposa de Kim deu à luz uma menina chamada Yeri. No entanto, a família enfrentou uma nova tragédia pouco tempo depois: Kim Yi-hyeok morreu em um acidente de mergulho cerca de 19 meses após conquistar a liberdade. “Não parece real”, declarou o irmão ao comentar a morte.
Hoje, Kim Il-hyeok vive na Coreia do Sul, onde faz cursos profissionalizantes e participa de palestras sobre a realidade norte-coreana. Recentemente, ele também celebrou o nascimento da segunda filha no país. “Eu me considero uma das pessoas sortudas”, declara.



