A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, teve grande repercussão após o atestado de óbito indicar cardiomiopatia hipertrófica como causa da morte súbita do jovem. Essa condição, considerada grave e frequentemente silenciosa, afeta diretamente o músculo cardíaco e pode provocar complicações fatais, inclusive em pessoas jovens e aparentemente saudáveis. Em entrevista ao portal LeoDias, os cardiologistas Dr. Giulio Cesare e Dr. Edmo Atique Gabriel explicaram os riscos da doença, os sintomas de alerta e a possível ligação entre o quadro e o uso de anabolizantes.
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Segundo o Dr. Giulio Cesare, a cardiomiopatia hipertrófica é uma alteração estrutural significativa no coração. “A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença do músculo cardíaco em que as paredes do coração ficam muito espessas, bem acima do normal. Na maioria dos casos, tem origem genética e é responsável por quase 90% das mortes súbitas em pacientes com menos de 35 anos. Esse espessamento pode dificultar o enchimento e a saída do sangue do coração, além de aumentar bastante o risco de arritmias graves.”
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Na mesma linha, o Dr. Edmo Atique Gabriel destacou que o espessamento progressivo do músculo cardíaco compromete o funcionamento do órgão ao longo do tempo. “Essa doença consiste no espessamento das paredes do coração. O músculo cardíaco vai engrossando de forma progressiva, podendo ter causas genéticas ou ser causada pelo estímulo de substâncias como anabolizantes.”
Os especialistas ressaltam que a doença pode permanecer sem sintomas por muitos anos. Dr. Giulio explicou: “Na maioria das vezes é assintomática, e quando aparecem sintomas, os principais são falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura, desmaios e queda no desempenho físico. Em casos mais graves, pode ocorrer arritmia logo de início e até morte súbita.”
Complementando, Dr. Edmo afirmou que “Essa doença pode passar despercebida por muito tempo e só apresenta sintomas em fases mais avançadas, quando o grau de espessamento do músculo cardíaco é severo.”
Questionados sobre a possibilidade de morte súbita em jovens, ambos os médicos foram enfáticos ao afirmar que a cardiomiopatia hipertrófica está entre as principais causas desse tipo de ocorrência em atletas e pessoas com menos de 35 anos.
“Sim. É a principal causa de morte súbita em jovens atletas e pessoas abaixo dos 35 anos. Com o espessamento da musculatura do coração ‘para dentro’, pode provocar arritmias graves, especialmente durante esforço físico intenso, quando o coração é mais exigido. Muitas vezes, o paciente não apresenta sintomas prévios, o que torna a doença ainda mais perigosa quando não é diagnosticada”, afirmou Dr. Giulio.
Dr. Edmo acrescentou: “Sim, nos casos mais avançados, pode ocorrer morte súbita. O coração vai ficando muito ‘duro’, muito rígido, tendo dificuldades para bater adequadamente e começa a apresentar arritmias (desorganização dos batimentos) e perda de força para bombear o sangue.”
Sobre o caráter hereditário da doença, ambos reforçaram a importância da investigação familiar e do acompanhamento cardiológico preventivo. “Na maioria dos casos, tem origem genética, por isso recomendamos avaliação em familiares de portadores da doença ou com histórico de morte súbita”, explicou Dr. Giulio.
Dr. Edmo ressaltou: “Essa doença, em alguns casos, pode ter caráter hereditário. Quando identificado esse traço familiar, deve ser feito acompanhamento cardiológico rigoroso nos descendentes. O exame mais direto que se faz é o ecocardiograma transtorácico com doppler colorido.”
A prática intensa de exercícios físicos também pode representar risco em pessoas que já possuem a condição. Dr. Giulio destacou a diferença entre a doença e o chamado “coração de atleta”. “É importante ressaltar que a pessoa precisa ter a doença. Em um indivíduo saudável, isso não ocorre, nem a cardiomiopatia hipertrófica será desenvolvida apenas pela atividade física. O que vemos no exercício intenso, às vezes, é o ‘coração de atleta’, que é bem diferente da cardiomiopatia hipertrófica. Em portadores da doença, a atividade física intensa pode aumentar o risco de eventos graves, como desmaios e morte súbita. Muitas vezes, alguns ainda fazem uso de anabolizantes, o que favorece bastante o desenvolvimento da doença.”
Dr. Edmo também destacou os riscos do excesso: “Sim, existe essa relação em caso de atividades físicas realizadas em grande intensidade e com intervalos muito curtos entre os treinos. Por exemplo, se a pessoa treina pesado quase todos os dias, pode haver agravamento.”
O uso de anabolizantes foi outro ponto abordado pelos especialistas. Dr. Giulio afirmou: “Sim, e muito. O uso de esteroides anabolizantes pode aumentar significativamente os riscos cardiovasculares em pessoas com cardiomiopatia hipertrófica, elevando o risco de insuficiência cardíaca e morte súbita, especialmente durante esforço físico intenso. Estudos mostram que há um aumento de até 3 vezes no risco de morte súbita, e no fisiculturismo com uso de anabolizantes esse risco chega a ser 7 vezes maior.”
Dr. Edmo reforçou o alerta. “Com certeza, já que os anabolizantes são hormônios que, dependendo da dose e da frequência de uso, podem estimular o aumento da massa muscular do coração. Muitas vezes esse crescimento do músculo cardíaco é totalmente desproporcional, podendo levar à falência progressiva do coração e à morte.”
Sobre o diagnóstico, os médicos destacaram exames considerados fundamentais para identificar a doença precocemente. “Os principais exames são o eletrocardiograma e, principalmente, o ecocardiograma, exames simples e comuns de serem realizados. Outros exames também ajudam, como a ressonância magnética e avaliação genética, mas esses dois já são excelentes para o diagnóstico e rastreamento”, explicou Dr. Giulio.
Dr. Edmo completou: “O exame mais direto seria o ecocardiograma transtorácico com doppler colorido. Para aprofundar a investigação, a ressonância magnética do coração ajuda bastante.”
Os especialistas também afirmaram que é possível conviver com a doença após o diagnóstico, desde que haja acompanhamento médico adequado e mudanças no estilo de vida.
“Muitos pacientes conseguem ter boa qualidade de vida após o diagnóstico, principalmente quando há acompanhamento adequado. E hoje, diferente de antigamente, exercícios não são totalmente contraindicados, dependendo do caso de cada paciente. O tratamento depende da gravidade, inclui medicamentos para controlar sintomas e arritmias, restrições a exercícios intensos em alguns casos, acompanhamento cardiológico regular e, em situações específicas, implante de desfibrilador cardíaco para prevenção de morte súbita”, disse Dr. Giulio.
Já Dr. Edmo afirmou: “Sim, essa convivência depende do estágio da doença, ou seja, em casos não avançados, a pessoa consegue manter uma rotina relativamente normal. O tratamento começa com mudanças de hábitos e estilo de vida, especialmente evitando o uso de anabolizantes sem orientação adequada. Em casos mais graves, pode ser necessário algum procedimento cirúrgico.”
Antes da divulgação do atestado de óbito, chegou a ser cogitada a hipótese de que Gabriel pudesse ter sofrido hipoglicemia após o uso de insulina para fins estéticos. Sobre essa possibilidade, Dr. Giulio explicou: “A hipoglicemia grave pode provocar uma descarga de adrenalina, aumentando a frequência cardíaca e favorecendo arritmias. Em pessoas com cardiomiopatia hipertrófica, isso pode aumentar ainda mais o risco de complicações cardiovasculares graves.”
O médico ainda alertou sobre os perigos do uso inadequado da substância. “O uso inadequado de insulina por pessoas não diabéticas, especialmente para fins estéticos ou de performance, pode ser extremamente perigoso. A insulina vem sendo utilizada por alguns fisiculturistas de forma irregular na tentativa de aumentar o ganho muscular e melhorar o armazenamento de glicogênio no músculo. Isso acontece porque a insulina é um hormônio altamente anabólico, capaz de aumentar a entrada de glicose e aminoácidos nas células. A principal complicação é a hipoglicemia grave, que pode causar sudorese, tremores, confusão mental, perda de consciência, convulsões e até morte.”
Dr. Edmo também comentou sobre a relação do uso inadequado de insulina com o agravamento da doença cardíaca. “Sim, existe a possibilidade desse tipo de uso da insulina piorar o quadro de hipertrofia do coração e também causar fraqueza e falta de energia devido à hipoglicemia. A insulina é um hormônio também e seu uso em excesso pode favorecer o crescimento descontrolado do músculo cardíaco.”



