A morte do fisiculturista Gabriel Ganley trouxe à tona discussões sobre o uso de insulina para fins estéticos por pessoas que não são diabéticas e os perigos da hipoglicemia, condição que pode ocorrer após o uso inadequado desse hormônio e provocar complicações graves, até mesmo fatais. Em entrevista ao portal LeoDias, a endocrinologista e nutróloga Ana Heloísa Bresque esclareceu como a queda acentuada dos níveis de glicose no sangue impacta o corpo e por que esse quadro pode se tornar uma emergência médica.
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Segundo a médica, a hipoglicemia ocorre quando a concentração de açúcar no sangue fica abaixo do considerado seguro.
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“Hipoglicemia é um valor baixo de açúcar no sangue. Em pessoas que não utilizam medicamentos que causam hipoglicemia, consideramos hipoglicemia quando o valor está abaixo de 55 mg/dl, mas para quem usa insulina ou outros medicamentos que provocam hipoglicemia, consideramos valores abaixo de 70 mg/dl. Níveis de glicose menores que 50 mg/dl já são considerados hipoglicemia grave e podem levar à perda de consciência, sendo necessário auxílio de outras pessoas para corrigir”, explicou.
A médica ressalta que, em situações mais graves, a condição pode rapidamente se transformar em uma emergência.
Quais são os sintomas?
De acordo com a Dra. Ana Heloísa Bresque, os primeiros sinais geralmente envolvem mudanças importantes no funcionamento do organismo.
“Sudorese fria, confusão mental, tremores, taquicardia, tontura, visão turva e até perda de consciência. Consideramos emergência médica quando os níveis estão abaixo de 50 mg/dl, pois a pessoa vai precisar de terceiros para corrigir a hipoglicemia”, afirmou.
A endocrinologista também alertou que algumas pessoas podem não perceber os sintomas antes de desmaiar.
“Sim. Quando alguém tem episódios frequentes de hipoglicemia, o corpo se adapta e para de emitir sinais precoces, fazendo com que só apareçam sintomas quando a situação já está grave, com perda de consciência”, disse.
Hipoglicemia pode causar morte durante o sono?
Segundo a especialista, esse é um dos cenários mais preocupantes envolvendo a queda acentuada da glicose.
“Pode sim, e esse é um dos maiores riscos da hipoglicemia. Os níveis de açúcar podem cair rapidamente durante o sono, quando a pessoa está em jejum, e dependendo da fase do sono, ela pode não acordar com os sintomas. Como a hipoglicemia pode causar confusão mental e perda de consciência, a pessoa perde a consciência dormindo e não percebe que está em hipoglicemia”, explicou.
Ela afirma que o uso de insulina à noite aumenta ainda mais esse risco.
“A pessoa, por estar dormindo, pode não notar os sintomas clássicos de hipoglicemia (tremores, sudorese, taquicardia) e não agir a tempo de reverter o quadro. A hipoglicemia vai se agravando, com queda cada vez maior, levando à perda de consciência e morte”, alertou.
Uso de insulina sem diabetes pode ser fatal
A médica ressaltou que a insulina é um hormônio muito potente e perigoso quando utilizado sem indicação médica.
“Sim!! A insulina é um hormônio extremamente potente e pode provocar hipoglicemias graves quando aplicada em quem não necessita desse medicamento”, afirmou.
Segundo ela, alguns fatores comuns entre fisiculturistas aumentam ainda mais o risco de hipoglicemia grave.
“Todos esses fatores aumentam bastante o risco de hipoglicemia. O uso de insulina por atletas e fisiculturistas já representa um risco enorme. Quando associado a dietas restritivas, jejum prolongado e treinos intensos, o risco é ainda maior. Outro ponto é que esses atletas costumam ter pouca gordura corporal, tornando-os mais sensíveis à ação da insulina”, explicou.
A endocrinologista também comentou sobre a relação entre hormônios, anabolizantes e alterações nos níveis de glicose.
“Sim. Existem alguns tipos de anabolizantes que podem até aumentar o açúcar no sangue, como o GH, por exemplo. Mas a combinação de treino intenso, baixa ingestão de carboidratos e pouca gordura corporal pode tornar a pessoa muito sensível à insulina”, pontuou.
Como é feita a investigação?
Dra. Ana Heloísa Bresque explicou que exames específicos podem ser realizados para identificar uma hipoglicemia fatal durante a investigação após a morte.
“É possível medir os níveis de insulina e glicose. Podemos dosar a glicose no humor vítreo, que fica dentro do olho, para saber esses valores no momento da morte”, disse.
Ela também alertou sobre os danos neurológicos e cardíacos causados pela falta severa de glicose no organismo.
“A principal fonte de energia do cérebro é a glicose. Sem ela, ele ‘desliga’. Podem ocorrer convulsões e perda de consciência. Sem conseguir carboidrato por estar inconsciente, o coração para”, afirmou.
Ao final, a médica fez um alerta enfático sobre o uso de insulina sem acompanhamento.
“Jamais fazer sem acompanhamento médico e nunca usar insulina sem indicação, pois pode ser fatal. Hoje existem sensores de glicose que avisam quando a glicose está baixa ou em queda”, concluiu.



