O futebol brasileiro nunca movimentou tanto dinheiro como agora. As receitas aumentaram, os investimentos em jogadores atingiram recordes e os clubes ampliaram sua presença econômica dentro e fora de campo. No entanto, apesar dos números bilionários, um levantamento divulgado no Relatório Convocados 2026, elaborado pela Convocados Gestão e Futebol, Outfield e com apoio da Galapagos Capital, mostra um cenário que mistura crescimento, preocupação e mudanças. O principal alerta é claro: se as regras finais do fair play financeiro já estivessem valendo, quase metade dos clubes do Brasileirão não seria aprovada.
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A análise foi feita com base no novo Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), criado pela CBF e fiscalizado pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF). O sistema acompanha obrigações em dia, equilíbrio operacional, gastos com elenco e níveis de endividamento, prevendo punições que vão desde advertências e multas até perda de pontos, restrições para registro de atletas e, em casos mais graves, rebaixamento.
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O próprio relatório destaca que a avaliação não é oficial nem representa um julgamento da ANRESF. Como os clubes ainda não divulgam todos os dados no formato exigido pelo SSF, os autores criaram uma categoria intermediária para os casos em que faltam informações suficientes para uma conclusão definitiva. Trata-se, portanto, de um retrato preliminar do desafio que o futebol brasileiro terá nos próximos anos.
Quem passaria e quem ficaria pelo caminho
De acordo com a análise conduzida por Cesar Grafietti, apenas sete clubes seriam aprovados sem ressalvas nos critérios finais do sistema: Bahia, Flamengo, Fluminense, Juventude, Mirassol, Palmeiras e Red Bull Bragantino. Outros quatro — Cruzeiro, Santos, São Paulo e Vitória — apareceriam como “aprovados com dúvidas”. Já Atlético-MG, Botafogo, Ceará, Corinthians, Fortaleza, Grêmio, Internacional, Sport e Vasco estariam reprovados.
Na prática, isso indica que 45% dos times da Série A não atingiriam os parâmetros exigidos para a fase definitiva do fair play financeiro. O estudo aponta ainda que o critério com maior índice de reprovação foi justamente o de equilíbrio financeiro, considerado um dos pilares centrais do novo modelo regulatório.
O paradoxo do futebol brasileiro
O relatório aponta que a indústria do futebol vive um momento de crescimento sem precedentes. As receitas aumentaram, impulsionadas por transferências de jogadores, patrocínios, acordos comerciais e participações internacionais. Ao mesmo tempo, os clubes investiram R$ 4,4 bilhões em elencos profissionais só em 2025, sendo o segundo ano seguido de recorde em gastos com contratações.
O problema é que o aumento das receitas veio acompanhado de elevação constante das despesas e das dívidas. O levantamento estima que o endividamento consolidado dos clubes chegou a R$ 17,3 bilhões, impulsionado principalmente por obrigações operacionais ligadas à compra de jogadores e compromissos assumidos nos últimos anos.
O próprio relatório define o cenário como uma contradição típica do futebol brasileiro: nunca se gerou tanto caixa, nunca se investiu tanto e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta pressão sobre a sustentabilidade financeira de parte dos clubes.
O destaque inesperado
Entre os alertas envolvendo alguns dos maiores clubes do país, um nome chama atenção pela consistência dos dados: Mirassol. Recém-chegado à elite nacional e distante do poder econômico dos grandes clubes, o time do interior paulista está entre os aprovados no SSF e aparece como um dos principais exemplos de equilíbrio financeiro destacados pelo estudo.
Os números apresentados mostram crescimento relevante nas receitas, EBITDA positivo, geração de caixa consistente e uma característica rara no futebol brasileiro atual: mais recursos disponíveis do que dívidas. O relatório classifica o Mirassol como um “aplicador líquido”, ou seja, o caixa é maior que o passivo financeiro. Além disso, suas demonstrações financeiras foram publicadas sem ressalvas.
O desempenho financeiro acompanha a eficiência esportiva vista nos últimos anos. Mesmo atuando em uma realidade econômica bem inferior à dos grandes clubes, o Mirassol conseguiu unir competitividade em campo com controle das contas fora dele, tornando-se uma das referências positivas da nova edição do estudo.
Uma nova era para os clubes
O levantamento indica que o fair play financeiro pode mudar a lógica de gestão do futebol brasileiro. O sistema impõe limites para gastos com elenco, exige compatibilidade entre receitas e despesas e cria mecanismos para controlar o endividamento de curto prazo. Quando plenamente implementado, clubes da Série A não poderão ter custos com elenco acima de 70% das receitas nem dívidas de curto prazo superiores a 45% da arrecadação.
A mensagem deixada pelo relatório é objetiva: o futebol brasileiro segue crescendo como indústria, mas o aumento das receitas, sozinho, não garante sustentabilidade. Com regras mais rígidas, a diferença entre sucesso e fracasso pode depender menos do tamanho da torcida ou dos investimentos em contratações e mais da capacidade de transformar dinheiro em gestão eficiente.



