A situação financeira de grandes empresas brasileiras voltou ao centro do debate econômico e político em 2026. Companhias de diferentes setores enfrentam dívidas bilionárias e recorrem a mecanismos como recuperação judicial e extrajudicial para reorganizar seus passivos e negociar condições de pagamento com credores.
O cenário também passou a ser utilizado por adversários do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como argumento de crítica à política econômica. O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, por exemplo, foi explorado por integrantes da oposição nas críticas ao governo. A empresa, entretanto, atribui suas dificuldades a uma combinação de fatores, entre eles investimentos realizados desde 2019, efeitos da pandemia, aumento dos juros, inadimplência e concorrência de plataformas digitais.
No varejo, grandes redes brasileiras reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas entre 2023 e 2026 por meio de recuperações judiciais ou extrajudiciais. Entre os fatores apontados para a deterioração do setor estão os juros elevados, o endividamento das famílias, mudanças no comportamento dos consumidores e a concorrência do comércio eletrônico.
Os casos abaixo reúnem empresas que, em agosto de 2026, enfrentam processos de recuperação ou reestruturação financeira relevantes. Os valores não são diretamente comparáveis em todos os casos, pois algumas cifras correspondem à dívida total, enquanto outras representam apenas os créditos submetidos aos respectivos planos.
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1. Raízen — R$ 65,1 bilhões no plano de recuperação extrajudicial
A Raízen entrou em recuperação extrajudicial em março de 2026 para renegociar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas. O pedido foi aceito pela Justiça e, em 30 de julho, o plano foi homologado. A homologação tornou os termos da reestruturação obrigatórios para os credores abrangidos.
O valor de R$ 65,1 bilhões corresponde ao montante envolvido no plano. A dívida total da companhia, segundo levantamento da XP, era de aproximadamente R$ 75,3 bilhões, dos quais cerca de R$ 65,4 bilhões estavam sujeitos ao plano.
No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão e dívida líquida de R$ 56,87 bilhões. O resultado representou redução de 11% no prejuízo em relação ao mesmo período do ano anterior.
A companhia também anunciou a venda de ativos como parte da estratégia de simplificação do portfólio e redução do endividamento.
2. Braskem — mais de US$ 10 bilhões em dívidas
A Braskem está em situação financeira delicada e negocia com credores uma possível reestruturação de sua dívida, mas a companhia ainda não entrou em recuperação extrajudicial no Brasil.
Em agosto, a empresa informou que avalia medidas de proteção financeira e afirmou que ainda não havia tomado decisão sobre um eventual pedido de recuperação extrajudicial. As negociações envolvem uma dívida superior a US$ 10 bilhões.
Em junho, a Braskem obteve proteção judicial contra credores por 60 dias. A companhia também enfrenta os efeitos financeiros da crise do setor petroquímico e das obrigações relacionadas ao afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema em Maceió.
A situação se tornou ainda mais complexa com a recuperação judicial da Braskem Idesa, joint venture da Braskem no México. A empresa entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos para reestruturar sua dívida, que deve cair de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão.
Apesar da crise financeira, a Braskem registrou lucro de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, segundo informações divulgadas em agosto.
3. Americanas — cerca de R$ 43 bilhões
A Americanas entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, após a descoberta de inconsistências contábeis que levaram a um rombo bilionário. O processo envolve aproximadamente R$ 43 bilhões em dívidas.
Em março de 2026, a empresa pediu à Justiça o encerramento da recuperação judicial. O pedido, porém, foi contestado por credores, que alegaram problemas relacionados ao cumprimento de obrigações previstas no plano.
No primeiro semestre de 2026, a companhia registrou prejuízo de R$ 603 milhões. Apesar do resultado negativo, a empresa informou melhora em indicadores operacionais e registrou crescimento nas vendas.
Portanto, a Americanas ainda está submetida às consequências da recuperação judicial, mas busca encerrar o processo e apresenta sinais de recuperação operacional.
4. Oi — cerca de R$ 42 bilhões
A Oi enfrenta uma das situações financeiras mais complexas entre as grandes empresas brasileiras. A dívida da companhia chegou a aproximadamente R$ 42 bilhões, segundo informações da gestão judicial.
Do montante, aproximadamente R$ 8,1 bilhões tinham vencimentos previstos até dezembro de 2027; outros R$ 5,7 bilhões, até dezembro de 2028; e R$ 28,2 bilhões, a partir de 2029.
A situação também é pressionada pelo tamanho reduzido da operação. A receita líquida da companhia foi estimada em cerca de R$ 85 milhões por mês, enquanto os prejuízos operacionais ultrapassavam R$ 7 milhões mensais.
A companhia permanece envolvida em processo de recuperação judicial e busca alternativas para reforçar o caixa e reorganizar seus compromissos financeiros.
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5. Casas Bahia — R$ 17,3 bilhões
O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial em agosto de 2026 para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. O processo envolve dez empresas do grupo, entre elas Casas Bahia, Ponto Frio, Extra.com e Bartira.
A maior parte da dívida incluída no processo — aproximadamente R$ 16,4 bilhões — corresponde a créditos quirografários, ou seja, sem garantias reais. A dívida total do grupo, considerando também créditos que ficam fora da recuperação, supera R$ 27,8 bilhões.
A companhia registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no trimestre. Segundo a empresa, aproximadamente R$ 9,1 bilhões desse resultado decorreram de efeitos contábeis sem impacto direto no caixa.
O grupo anunciou o fechamento de 298 lojas e demissões que podem chegar a 3 mil funcionários. Entre os fatores apontados pela companhia para a crise estão investimentos em tecnologia e logística iniciados em 2019, efeitos da pandemia, aumento dos juros, inadimplência e concorrência digital.
6. Light — cerca de R$ 11 bilhões no processo de recuperação
A Light entrou em recuperação judicial em 2023 para reestruturar aproximadamente R$ 11 bilhões em dívidas.
A situação da companhia, porém, mudou em 2026. Em julho, a Light protocolou pedido para encerrar a recuperação judicial após informar que havia cumprido as principais obrigações previstas no plano aprovado pelos credores. O encerramento ainda depende de decisão judicial.
No segundo trimestre, a empresa registrou dívida líquida ajustada de R$ 5,57 bilhões, queda de 16,9% em relação ao trimestre anterior. No mesmo período, o EBITDA ajustado alcançou R$ 599 milhões e o lucro líquido ajustado chegou a R$ 150 milhões.
A companhia também anunciou a renovação da concessão da distribuidora por mais 30 anos e realizou aumento de capital que resultou em entrada de R$ 1,24 bilhão no caixa.
7. Oncoclínicas — R$ 5,1 bilhões
A Oncoclínicas entrou com pedido de recuperação extrajudicial em julho de 2026 para renegociar aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas. A Justiça de São Paulo concedeu proteção contra cobranças durante o processo de negociação com os credores.
No segundo trimestre, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 475,7 milhões, alta de 234% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida caiu 28,5%, para R$ 1,05 bilhão, enquanto a dívida líquida chegou a R$ 3,40 bilhões.
A empresa também vendeu sua participação de 27,49% em uma joint venture na Arábia Saudita por US$ 6,55 milhões. Os recursos serão utilizados para a compra de medicamentos, segundo a companhia.
O caso também envolve a exposição da companhia ao Banco Master. A CVM abriu investigação relacionada à aplicação de aproximadamente R$ 1,5 bilhão em CDBs da instituição financeira posteriormente liquidada.
8. GPA — R$ 4,6 bilhões
O GPA, dono da rede Pão de Açúcar, entrou em recuperação extrajudicial em março de 2026 para renegociar aproximadamente R$ 4,5 bilhões em obrigações financeiras sem garantia. Fornecedores, clientes, parceiros comerciais e funcionários ficaram fora do plano.
Em maio, a companhia chegou a um acordo com credores que representavam 57,49% dos créditos sujeitos ao processo. O valor atualizado das dívidas abrangidas pelo plano chegou a aproximadamente R$ 4,57 bilhões.
O acordo prevê redução de mais de R$ 2 bilhões no endividamento e alongamento do prazo médio dos pagamentos para aproximadamente 6,4 anos.
Portanto, o GPA não deve ser apresentado como uma empresa em falência, mas como uma companhia que passou por uma reestruturação extrajudicial de sua dívida.
9. Kora Saúde — R$ 2,78 bilhões
A Kora Saúde registrou dívida líquida de R$ 2,78 bilhões no segundo trimestre de 2026. No período, o prejuízo líquido ajustado foi de R$ 128,2 milhões, enquanto o prejuízo contábil chegou a R$ 152 milhões.
A empresa também avançou em seu processo de recuperação extrajudicial. Decisões judiciais proferidas em maio e agosto reconheceram o quórum necessário para a homologação dos planos apresentados aos credores.
A companhia atribui parte da pressão financeira ao custo dos juros e afirma estar promovendo mudanças no portfólio de serviços, com maior concentração em procedimentos de maior valor agregado.
Apesar do prejuízo, a receita líquida do segundo trimestre cresceu 5,8%, para R$ 636,7 milhões.
10. Grupo Toky — R$ 1,1 bilhão
O Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, entrou com pedido de recuperação judicial em maio de 2026. O processo envolve aproximadamente R$ 1,1 bilhão em dívidas e teve o plano aprovado em junho.
No segundo trimestre, o grupo registrou prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões, contra R$ 88,9 milhões no mesmo período do ano anterior. O EBITDA ajustado ficou negativo em R$ 7,6 milhões.
A empresa atribui as dificuldades financeiras ao ambiente macroeconômico desfavorável e busca, por meio da recuperação judicial, garantir a continuidade das operações e reorganizar seus compromissos financeiros.


