A prisão da influenciadora trans brasileira Malévola Alves, na terça-feira (20), em Alexandria, no Egito, chamou a atenção para as restrições enfrentadas pela população LGBTQIA+ no país. Detida ao lado de uma amiga após a divulgação de vídeos gravados em espaços públicos, ela foi acusada pelas autoridades locais de praticar atos contrários à moralidade pública. Segundo informações do Metrópoles, o episódio ocorre em um país onde pessoas trans enfrentam dificuldades para obter o reconhecimento legal de sua identidade de gênero e podem ser alvo de medidas policiais baseadas em leis relacionadas aos costumes.
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O Ministério do Interior egípcio confirmou a detenção das duas. De acordo com as autoridades, vídeos que circularam nas redes sociais mostrariam gestos e insinuações, além de situações de suposto assédio a pedestres nas ruas de Alexandria.
A versão apresentada pelo governo, entretanto, foi contestada pela influenciadora Bruna Tivo, amiga de Malévola, que estava no Egito antes da prisão. Nas redes sociais, ela afirmou que as brasileiras vinham sendo filmadas por desconhecidos durante a viagem e relacionou o episódio à discriminação contra pessoas trans. “Jogaram vídeos nossos no Egito em um grupo do Facebook. O problema é sobre ser trans. Estavam tentando armar para a gente. Todos os lugares que íamos éramos filmadas”, declarou.
Bruna retornou a Paris, na França, antes da detenção de Malévola. Segundo seu relato, a amiga estava sem celular e permanecia em uma delegacia. Ela também criticou a maneira como o caso foi apresentado pela imprensa egípcia. “No jornal do Egito elas estão saindo como assediadoras, quando a verdade não é essa. Eles assediaram todas nós o tempo todo”, afirmou.
Conforme explicou o Metrópoles, a legislação egípcia não oferece um procedimento claro e acessível para que pessoas trans consigam alterar o gênero em seus documentos oficiais. Até 2024, havia uma possibilidade de reconhecimento legal, mas o processo exigia a realização de cirurgia de redesignação sexual.
Uma diretriz posterior restringiu a alteração dos registros a pessoas intersexo, que nascem com características que não correspondem às definições típicas de masculino ou feminino. No Egito, a intersexualidade é tratada como uma condição médica.
As dificuldades também envolvem a aplicação de leis relacionadas à moralidade pública. Embora a homoss*xualidade não seja expressamente criminalizada no país, autoridades utilizam dispositivos legais sobre a chamada devassidão para processar pessoas LGBTQIA+.
A repressão se intensificou após a intervenção militar de 2013, que levou Abdel Fattah el-Sisi ao poder. Em 2016, o jornal The New York Times revelou que pelo menos 250 pessoas LGBTQIA+ haviam sido presas durante os três primeiros anos do regime.
Segundo a reportagem, condenações relacionadas à chamada devassidão habitual poderiam resultar em penas de dois a 12 anos de prisão.
O episódio envolvendo Malévola não é o primeiro caso de uma brasileira detida no Egito. Em 2014, a modelo gaúcha Jhenifer Dalbosco foi presa sob suspeita de prostituição, prática proibida no país. Ela permaneceu detida por aproximadamente duas semanas e foi liberada após o pagamento de fiança.
No caso de Malévola, as versões apresentadas até o momento são diferentes. Enquanto o Ministério do Interior egípcio atribui a detenção a comportamentos registrados em vídeos, Bruna Tivo afirma que as brasileiras foram alvo de assédio e discriminação.


