A Polícia Civil do Distrito Federal prendeu três suspeitos de homicídios ocorridos no interior do Hospital Anchieta, localizado na região administrativa de Taguatinga. Segundo as investigações, todos os detidos trabalhavam como técnicos de enfermagem e teriam utilizado desinfetante, substância de uso externo destinada à higienização de superfícies, como agente tóxico contra pacientes internados. Em um dos casos, o homem investigado aplicou o produto nocivo mais de dez vezes em uma única pessoa, evidenciando premeditação e abuso de função. A série de crimes passou a ser apurada sob o nome de Operação Anúbis, em referência ao deus grego da morte.
++ Aprenda a usar IA para criar novos negócios e gerar renda passiva
Os suspeitos têm 24, 28 e 22 anos. O homem de 24 anos atuava no Hospital Anchieta há cinco anos, enquanto as duas mulheres ocupavam a mesma função há período menos extenso. De acordo com o cronograma levantado pela Polícia Civil do Distrito Federal, as mortes ocorreram em novembro e dezembro de 2025, mas só vieram a público na última segunda-feira, 19 de janeiro de 2026. Os casos seguem em apuração para identificar eventuais falhas nos protocolos de segurança e eventuais vítimas adicionais.
++ Eliza Samudio é a ‘mãe desconhecida’ do primogênito de Cristiano Ronaldo? Entenda a teoria
Conforme o delegado responsável pelo caso, Wisllei Salomão, o principal investigado aplicou altas doses de um medicamento combinado a desinfetante como se fosse veneno. Inicialmente, o homem negou qualquer envolvimento, mas acabou admitindo o crime após o confronto das imagens captadas pelas câmeras de segurança do hospital. A polícia utilizou esses registros como prova fundamental para comprovar que os pacientes foram submetidos a procedimentos não autorizados pela equipe médica.
Uma das mulheres, de 22 anos, também confessou participação nos atos e manifestou arrependimento por não ter impedido o colega. Em depoimento, ela descreveu as ações do companheiro de trabalho: “Ele colocou o desinfetante em um copo plástico, aspirou o conteúdo com a seringa e aplicou a substância nos pacientes mais de dez vezes”, detalhou o delegado Wisllei Salomão. A técnica de enfermagem mais velha, de 28 anos, ainda não teve seu depoimento divulgado publicamente.
Os três foram presos temporariamente por 30 dias, conforme determinação judicial, e as investigações prosseguem para elucidar se houve outras vítimas ou se crimes semelhantes ocorreram em departamentos do hospital onde o principal suspeito já atuou. Até o momento, foram confirmados três óbitos: João Clemente Pereira, de 63 anos; Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos; e Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos. As vítimas apresentaram estágios clínicos diversos, desde complicações respiratórias até parada cardíaca.
Segundo relatos de familiares, João Clemente Pereira deu entrada no Hospital Anchieta em 4 de novembro de 2025 com sintomas de tontura e passou por drenagem de um coágulo cerebral. Após complicações respiratórias, foi conduzido à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ambiente de cuidados intensivos para pacientes em estado crítico. No dia 17 de novembro, apresentou piora súbita no quadro neurológico e sofreu uma parada cardíaca, vindo a falecer. Exames periciais apontaram concentração anormal de substâncias agressivas na corrente sanguínea.
As apurações também revelaram que o suspeito utilizou a senha de um médico para emitir uma receita falsa do medicamento, dirigiu-se à farmácia do hospital e aplicou o remédio combinado ao desinfetante nas três vítimas sem conhecimento da equipe médica. Para tentar disfarçar o atentado, realizou massagens cardíacas após as injeções, procedimento de suporte à circulação que, em contexto criminal, serviu apenas para encobrir as condutas irregulares. Em nota divulgada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), a Coordenação de Repressão a Homicídio e de Proteção à Pessoa (CHPP), com apoio do Departamento de Polícia Especializada (DPE), informou que, na manhã de 11 de janeiro, deflagrou a Operação ANÚBIS. Além das prisões temporárias, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás. Na segunda fase da ação, realizada em 15 de janeiro, houve o cumprimento de mais um mandado de prisão temporária e a apreensão de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
O Hospital Anchieta, por meio de nota oficial, esclareceu que demitiu imediatamente os três auxiliares após um comitê interno identificar “circunstâncias atípicas” nas mortes de pacientes na UTI. Segundo a instituição, a investigação interna durou menos de 20 dias e gerou evidências que foram integralmente repassadas à Polícia Civil do Distrito Federal. O hospital afirmou ainda se considerar vítima das ações dos ex-funcionários, solidarizar-se com os familiares das vítimas e manter colaboração irrestrita com as autoridades competentes.
O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) comunicou que tomou conhecimento dos episódios e está adotando as providências legais cabíveis. Em nota, o Coren-DF ressaltou a gravidade dos fatos, afirmou que acompanha de perto o desenrolar das investigações e destacou a necessidade de respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. O órgão reafirmou seu compromisso com a segurança do paciente, a ética profissional e a promoção de uma enfermagem qualificada e responsável.


