Lance seu negócio online com inteligência artificial e comece a ganhar dinheiro hoje mesmo com o iCHAIT.COM

Seleção Brasileira e o hexa: como perdi a ilusão e vi o futebol com outros olhos

Date:


Existe um momento na vida em que percebemos que Papai Noel não existe. Que o Coelhinho da Páscoa é apenas uma invenção conveniente. Que o Loro José era só alguém escondido atrás do balcão da Ana Maria Braga manipulando um fantoche. Essas descobertas são pequenas diante da complexidade da vida, mas enormes para quem ainda acredita em certas fantasias. A maior de todas, para mim, é perceber que o hexa do Brasil virou algo semelhante. Não o título em si, claro. Mas tudo o que foi criado ao redor dele. Toda a atmosfera emocional, a narrativa épica, e a tentativa de transformar um produto extremamente lucrativo em quase uma causa sagrada. Pela primeira vez desde que me apaixonei por futebol, olho para uma Copa do Mundo sem aquela ilusão infantil de que estou prestes a ver algo grandioso acontecer. E isso fala muito mais sobre a Seleção Brasileira do que sobre mim.

++ Cresce o número de brasileiros usando IA para gerar conteúdo e atrair clientes

A primeira coisa que me fez gostar de futebol foi a Seleção Brasileira. Não foi um clube, nem a Libertadores ou um campeonato nacional. Foi a Copa do Mundo de 2002. Eu tinha cinco anos e não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Não sabia quem era o presidente da CBF, desconhecia o que era um esquema tático e provavelmente nem compreendia o tamanho do planeta que assistia àquele torneio. Mas uma coisa era evidente: aquele evento era diferente. Era a maior festa do mundo. E o meu país era o mais incrível de todos ali.

++ Jovem mata o padrasto para defender a mãe e o inesperado acontece

Era simples. O Brasil era o melhor. Por isso 2006 foi tão estranho. Hoje em dia é fácil revisitar aquela eliminação para a França e encontrar explicações. Zidane jogou demais. O time envelheceu. Houve falhas de planejamento. Mas para um garoto de nove anos aquilo era uma quebra de lógica tão grande quanto descobrir que o herói morre no final do filme.

Não fazia sentido. Estava fora de cogitação. Aquela geração de meninos via a Seleção Brasileira como algo quase imbatível. A derrota não era uma possibilidade real. Era quase um erro de roteiro. Que história ao contrário era aquela? Isso existe mesmo? Foi meu primeiro choque de realidade no esporte.

Nos anos seguintes continuei acreditando no sonho. Em 2010. Em 2014. Em 2018. Sempre havia uma esperança renovada. Uma nova história. Um novo motivo para acreditar que dessa vez seria diferente.

Eu era totalmente envolvido por isso. No 7 a 1 fiquei doente. Passei dois dias mal. E quando olho para trás, percebo que o mais impressionante não é o placar. É perceber a força que aquela construção emocional exercia sobre mim.

O futebol deixava de ser só entretenimento e ocupava um espaço muito mais profundo. Chamávamos isso de patriotismo. Talvez até seja. Mas hoje vejo também outra coisa: uma paixão conduzida com habilidade por quem aprendeu a transformar emoção em consumo. Só que o tempo passa. E junto com ele vêm coisas que uma criança não tem: informação, experiência e senso crítico.

Em 2018 eu ainda estava envolvido emocionalmente. Sofri com a eliminação para a Bélgica porque aquele ciclo parecia consistente. Havia alguma coerência e convicção. Algo parecido com o que existiu em 2010.

Mas depois disso comecei a mergulhar em outra camada do futebol, aquela que não aparece nos comerciais. A camada que não está nas campanhas publicitárias. Passei a acompanhar bastidores, política, disputas de poder, interesses econômicos, guerras de influência e tudo o que existe por trás do produto final.

Esta é a primeira Copa do Mundo que cubro oficialmente como jornalista. Acompanhei todo o ciclo. Participei de apurações sobre os bastidores da CBF, denúncias, escândalos, disputas jurídicas, jogos de poder e toda uma engrenagem que eu jamais imaginava quando assistia Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho na TV.

Quanto mais eu entendia como aquele sistema funcionava, mais difícil era manter a mesma relação emocional de antes. Foi aí que percebi. O hexa se tornou o novo Papai Noel. A lógica é quase a mesma. Cria-se uma atmosfera emocional poderosa capaz de unir milhões de pessoas em uma expectativa coletiva. Essa expectativa é alimentada por anos. Gera pertencimento, esperança, sonho… E tudo isso movimenta uma máquina que continua lucrando independentemente do que acontece dentro de campo.

Foi justamente trabalhando na imprensa que comecei a enxergar certas coisas de outro jeito. Continuo amando o futebol. Mas também passei a compreender melhor o que existe ao redor dele. A parte lúdica continua aqui. Continua viva. Ainda mexe comigo. O problema é quando ela vira desculpa para abrir mão do senso crítico.

Existe uma parte da cobertura esportiva que trata a Seleção Brasileira como uma causa a ser defendida, e não como um objeto a ser analisado. Qualquer questionamento vira pessimismo. Crítica vira perseguição e análise mais dura é vista como uma espécie de traição ao país. Como se fazer jornalismo fosse incompatível com gostar de futebol.

Mas quem apura, conversa com fontes, acompanha os bastidores, ouve todos os lados e tenta entender como as coisas realmente funcionam, dificilmente consegue continuar refém da mesma fantasia. Porque é impossível olhar para certas contradições e fingir que elas não estão ali. É impossível acompanhar escândalos, brigas de poder, acordos obscuros, crises institucionais e sucessivos constrangimentos públicos e seguir tratando tudo só pela ótica da narrativa conveniente.

Parte da imprensa esportiva parece ter trocado o jornalismo por uma assessoria de imprensa informal de jogadores, dirigentes e personagens do futebol. O objetivo deixa de ser entender os fatos e passa a ser proteger determinadas versões deles. Tudo precisa se encaixar em uma narrativa já escolhida. E quando isso acontece, o jornalismo perde um pouco de sua essência.

Quem realmente exerce o ofício sabe que a função não é acreditar. É verificar. Não é torcer para que algo seja verdade. É descobrir se é verdade. E esse processo começou a corroer parte da minha relação romântica com a Seleção Brasileira. Quanto mais eu entendia os bastidores, mais difícil era enxergar aquele universo apenas com os olhos do menino que achava que o Brasil era invencível.

A CBF passa por escândalos, denúncias, disputas judiciais, crises institucionais e uma sequência interminável de constrangimentos públicos. Nada disso impede a máquina de continuar funcionando. Afinal, o combustível nunca foi gestão, competência ou credibilidade. O combustível sempre foi a paixão. E paixão é um recurso renovável e altamente lucrativo. Aliás, quanto mais cego de paixão, mais fácil de ser manipulado.

Mas esse lado lúdico é o que torna todo esse produto fascinante e uma fonte inesgotável de audiência e, consequentemente, de lucro. E isso nasce naquele menino que assiste a uma Copa do Mundo aos cinco anos acreditando que a Seleção Brasileira é invencível. No adolescente que fica dois dias doente depois do 7 a 1. No adulto que compra camisa, discute escalação, sonha com o hexa e organiza a rotina em torno de um jogo.

O futebol, independentemente de quem o administra, nasce no povo. O povo cria o produto. O povo consome o produto. O povo sustenta o produto. Mas a única parte realmente distribuída de forma democrática segue sendo o sentimento coletivo de frustração. O lucro continua concentrado onde sempre esteve.

Enquanto isso, os donos do espetáculo seguem trocando de lugar dentro de uma estrutura que parece incapaz de sofrer consequências proporcionais aos próprios escândalos. Aproveitam toda a história construída por quem realmente fez o extraordinário. Os protagonistas criam o encanto. Os trabalhadores dedicados criam a beleza. Os jogadores produzem a arte. Quem administra o espetáculo só precisa garantir que a máquina continue funcionando a favor deles, mesmo sem mérito algum. E lucrando.

Os jogadores, por sua vez, acabam sendo vítimas e beneficiários do mesmo sistema. Porque todos eles, no fundo, continuam sendo aqueles meninos apaixonados por futebol. Só que agora milionários. Blindados. Domesticados. Anestesiados. Qualquer manifestação genuína de personalidade vira problema. Parece que nesse meio, ter opinião gera desconforto. É como se comportamento autêntico fosse um risco de imagem.

O sistema recompensa a obediência. E o resultado é uma geração cada vez mais parecida com personagens de empresas. Por isso chego a esta Copa do Mundo tão desconfiado.

Tudo ao redor desta Seleção parece artificial e desanimador. A novela Neymar. O “porrada neles”. A campanha patética do Vai Brasa. Os recordes negativos acumulados durante o ciclo. A postura omissa em vários dos momentos mais constrangedores da trajetória. A convocação transformada em um espetáculo exagerado que parecia uma peça de teatro amador apresentada pelos filhos dos fiéis

Share post:

Popular

Notícias Relacionadas
M5PORTS

Viviane Araujo participa de casamento de Xande de Pilares e fala sobre amizade e planos para o Dia dos Namorados

Acompanhada do marido, Guilherme Militão, Viviane Araujo esteve presente...

Virginia Fonseca recebe presente luxuoso no Dia dos Namorados e interação de Vini Jr. gera rumores

O Dia dos Namorados, comemorado nesta sexta-feira (12/6) no...
Translate »