Baltazar estava apenas no quarto dia de vida quando recebeu a pior notícia que um piolho poderia receber. “Leôncio, disseram que somos portugueses”, contou assustado ao irmão, enquanto ele mastigava um pequeno pedaço de pele descamada, iguaria local. “Portugueses?”, questionou surpreso, sem entender o significado. “Desde quando piolho tem nacionalidade?”, retrucou. Até aquela manhã, a maior preocupação era não ser esmagado por uma unha. O objetivo era simples: nascer, encontrar cabelo, sugar sangue e fugir do pente fino. Não existia universidade, previdência ou plano de carreira.
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Piolho não pensa em aposentadoria. A vida era curta demais para isso. Os dois estavam há poucos dias naquela cabeça quando perceberam que viraram assunto. Pessoas falavam sobre eles. Fotografaram parentes. Discutiam a origem deles.
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Alguém dizia que tinham vindo de Portugal. Outro afirmava que já estavam no Brasil. Até registros antigos de outros piolhos vistos anos atrás em território português apareceram na discussão.
Leôncio ficou revoltado. “Estão usando nossos antepassados numa briga de família”, refletiu. Baltazar coçou a cabeça… “Isso é ruim?”, perguntou. “Depende. Eles eram bons piolhos?”, devolveu o irmão. “Não sei.” “Então não temos advogado.”
A situação ficou ainda mais estranha quando perceberam que milhares de pessoas acompanhavam a história. Baltazar se sentiu importante: “Estamos famosos.” Leôncio tentou manter a postura: “Famoso por quê?” “Por sermos piolhos”, refletiu, em meio à crise existencial sem entender o próprio significado.
“Isso é uma profissão?”, pensou Baltazar. “Para nós, sim”, respondeu Leôncio. Era verdade. Nenhum dos dois fez esforço para chegar à fama. Não dançaram. Não cantaram. Não deram entrevista. Não tinham empresário. Apenas nasceram. E isso, aparentemente, já era suficiente.
Naquela noite, Baltazar reuniu a família: “Precisamos decidir nossa posição.” “Sobre o quê?”, perguntou uma prima. “Portugal.” “Você é português?” “Não sei.” “Então por que está discutindo?” Baltazar se ofendeu: “Porque estão discutindo por nós.”
A prima achou aquilo sofisticado demais para um ser que passava o dia grudado em fios de cabelo. Leôncio, enquanto isso, se preocupava: “Se descobrirem que somos brasileiros, nossa carreira acaba?” Ninguém respondeu.
Do lado de fora, os humanos continuavam debatendo. Havia acusações, respostas, vídeos, explicações e versões diferentes. Os piolhos apenas escutavam tudo em silêncio.
Baltazar então fez uma pergunta: “Mas alguém sabe o que a gente fez?” Leôncio olhou para ele: “Não.” “Então por que estão tão interessados?”
Leôncio pensou alguns segundos: “Talvez porque a vida dos outros seja mais interessante quando não é a nossa.” Baltazar ficou admirado: “Você ficou inteligente.” “Não. Só estou com fome.”
Na manhã seguinte, o destino dos dois mudou de novo. Um pente apareceu. Baltazar correu. Leôncio também. Enquanto os humanos discutiam nacionalidade, responsabilidade e internet, os dois enfrentavam uma questão muito mais urgente: sobreviver.
Baltazar conseguiu fugir. Leôncio não teve a mesma sorte. Antes de desaparecer entre os dentes do pente, ainda gritou: “Se perguntarem, sou português!”
Baltazar viu o irmão partir. Ficou sozinho. Famoso. Sem pátria. E com uma certeza desconfortável para alguém que vive apenas alguns dias: a humanidade transformou um piolho em questão de família. E o piolho, sem entender nada de família, só continuava tentando sobreviver.


