Famílias que buscaram a médium em busca de mensagens de parentes falecidos afirmam ter encontrado, nas cartas psicografadas, informações já disponíveis na internet e acusam Máira Rocha de golpe. Os relatos também apontam possíveis inconsistências e coleta de dados antes das sessões realizadas por Máira, que é alvo de denúncias por estelionato, charlatanismo e ameaça. De acordo com apuração do Fantástico, da TV Globo, a investigação sobre Máira Rocha durou mais de dois meses e ouviu famílias, pesquisadores e representantes de instituições espíritas.
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A empresária Marina Escames buscou Máira após perder o marido, Thiago, vítima de leucemia. Segundo ela, a procura pela psicografia estava relacionada ao desejo de receber uma mensagem dele: “Eu sou espírita kardecista desde que nasci, então sempre acreditei muito na psicografia, nos médiuns. Por isso queria muito uma notícia dele.”
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A comerciante Marcela Magalhães também recorreu à médium após a morte do filho Henrique, de 18 anos, em um acidente de carro: “É tanta dor, é tanta dor que você acredita em qualquer coisa.”
Famílias apontam informações disponíveis na internet
Marcela relatou que Máira se referiu a Henrique como jogador de futebol durante uma transmissão: “Eu… eu tô com o Henrique, um jogador de futebol que desencarnou muito cedo, mas mãezinha, ele tá bem.”
A família descobriu depois que uma reportagem sobre o acidente havia utilizado uma foto de Henrique com uniforme esportivo e o identificado como jogador. Para Marcela, esse fato levantou a suspeita de que dados públicos poderiam ter sido usados.
Em outro caso, Marina disse ter encontrado na carta do marido detalhes presentes em antigas postagens nas redes sociais, como uma expressão usada por Thiago e menções a uma tatuagem: “Eu fui nas minhas fotos, que tenho prints de redes sociais. E lá estava uma mensagem que o Tiago me mandou de aniversário. E no final ele falou: ‘te amo pra cacete’. Aí eu pensei: ‘poxa, então é o Tiago, né? É o Tiago que mandou essa mensagem.’”
Dados eram pedidos antes das sessões
Marina contou que o centro exigia informações pessoais antes da psicografia: “Antes da data da psicografia, 60 dias antes, você precisa se inscrever, você e seu acompanhante, e fornecer o nome completo, o CPF da pessoa que vai e do acompanhante.”
Pedro Camilo, escritor e pesquisador espírita, afirmou que esse tipo de prática pode possibilitar a criação de perfis com informações públicas: “Com esses dados é possível fazer uma busca nos bancos de dados da internet, montar um dossiê sobre aquela pessoa e sobre possíveis parentes desencarnados cujas informações podem ser repassadas.”
Durante a chamada “fila do abraço”, Marina também relatou que a médium teria perguntado diretamente sobre o marido: “Ela pediu o nome completo do meu marido, perguntou de que ele tinha falecido, eu entreguei uma foto dele e, assim, realmente, nessa fila do abraço, ela coletou várias informações.”
Caso de Matteo aumentou desconfiança
Marina relatou que uma carta mencionou um episódio de bullying sofrido pelo filho Matteo. Depois, ela descobriu que o menino havia contado a história diretamente à médium antes da sessão: “Não, mãe, eu conversei, a única coisa que eu falei pra ela foi se ela podia entregar a cartinha pro meu pai, e que ele me mandasse uma carta pra eu mostrar pro meu amiguinho que falou que eu sou sem pai.”
Para Marina, a descoberta teve um impacto ainda maior durante o luto: “Pronto, a única coisa que me apegava foi o meu filho que falou pra ela! O que mais me machucou foi o que ela fez com o meu filho. Foi o segundo luto, tanto pra mim quanto pro meu filho.”
Denúncias chegaram às autoridades
Outras famílias também relataram erros e inconsistências nas cartas. Diva Mascarenhas Borges, por exemplo, questionou informações sobre parentes e datas que considerou incompatíveis com a história familiar: “Tava ali, na internet. A ordem todinha do inventário era igualzinha a que estava na carta. É como se tivesse copiado e colado. Eram erros assim que estavam ali e que meu pai não cometeria.”
Segundo a reportagem, existem registros policiais contra Máira em pelo menos cinco estados, por acusações como estelionato, calúnia, difamação e ameaça. Também foram encaminhadas denúncias ao Ministério Público.
O presidente da Federação Espírita do Distrito Federal, Paulo Costa, afirmou que outras pessoas já haviam procurado a entidade relatando casos semelhantes.
“Essas pessoas traziam um luto, uma dor muito grande e buscaram nessas cartas uma espécie de consolo. E aí depois descobriam que aquela carta não era verdadeira ou que as informações eram, ou estavam em jornais, ou na internet, em redes sociais”, explica.
Pesquisadores alertam para impacto das supostas fraudes
O psicólogo e pesquisador Everton Maraldi destacou os possíveis efeitos sobre quem busca mensagens durante o luto: “Esse efeito pode ser, para muitas pessoas, desastroso. Você pode levar essa pessoa a questionar as próprias crenças, sua visão de mundo e prejudicar seu bem-estar, sua saúde mental.”
O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explicou que o uso de informações públicas para criar uma mensagem supostamente sobrenatural poderia, em tese, configurar estelionato.
“O tipo de estelionato é justamente quando, nesse caso específico, se instrumentaliza a fé, ou seja, engana-se a pessoa dizendo que possui informações extraordinárias, quando na verdade está enganando, está buscando dados em bancos de dados, eventualmente na internet, e entrega uma carta psicografada que, na verdade, é falsa”, afirma.
Máira Rocha também se manifestou publicamente sobre as críticas e questionamentos: “Cuidado na pedra que você joga, tenha absoluta certeza que seu telhado não é de vidro para que você possa fazer isso. Se a pessoa for lá dizer que eu peguei na internet, até eu posso completar o recado. Agora se ela vai gostar é, de ser dito isso em público, eu não sei, né? Eu prefiro responder um processo cível, porque provavelmente vai acontecer, já que eu vou falar o nome das pessoas, prefiro pagar, né? Prefiro pagar a indenização.”
Apesar das denúncias, pesquisadores ouvidos pelo Fantástico ressaltaram que existem estudos sobre psicografia feitos sob critérios controlados. O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, da Universidade Federal de Juiz de Fora, explicou que pesquisas com médiuns procuram evitar contato prévio entre os envolvidos e monitoram o processo de produção das mensagens.
Ao final da apuração, Máira não aceitou conceder entrevista para responder às acusações apresentadas pela reportagem.


