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Nathália Ottoni Bastos transforma luta contra infertilidade em projeto social para casais de baixa renda

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A dor de enfrentar a infertilidade por sete anos e passar por nove tentativas de fertilização levou Nathália Ottoni Bastos e seu marido, João Gaspar, a transformar sua própria história em uma iniciativa capaz de mudar a vida de outras famílias. Em 2016, foi criado o N.Tentativas, projeto social ligado ao Instituto Maragata que busca viabilizar tratamentos de reprodução assistida para casais de baixa renda que não têm condições de custear os procedimentos.

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Desde que foi criado, o projeto já atendeu quase 150 casais. No entanto, esse número ainda é pequeno diante da demanda: a lista de espera chega a quase 900, segundo Nathália. Para a fundadora, o maior desafio é conseguir recursos suficientes para ampliar o atendimento e permitir que mais famílias tenham a chance de tentar engravidar.

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“Todo projeto social nasce de uma dor. E o projeto N.Tentativas nasceu da nossa dor e do nosso amor, que se misturam. Eu e o João enfrentamos tudo isso durante esses sete anos, todos esses medos e angústias. Depois que a gente passa por isso, sabe como é doloroso e como é difícil continuar”, contou Nathália ao relatar como a experiência pessoal inspirou a criação da iniciativa.

A trajetória do casal também fez com que a fundadora percebesse uma dificuldade que vai além dos desafios físicos e emocionais da infertilidade: o alto custo dos tratamentos. Além de lidar com a expectativa e as incertezas de cada tentativa, muitos pacientes precisam enfrentar uma barreira financeira que pode impedir a continuidade da busca pela gravidez.

“Os tratamentos são muito caros, os medicamentos são caros. Não basta o casal já ter dificuldades naturais de engravidar, ainda encontra essa questão financeira que realmente pesa demais. A infertilidade é uma doença que pesa no emocional, no social, no relacionamento e pesa no bolso muito”, afirmou.

Antes de transformar sua experiência em projeto social, Nathália já compartilhava nas redes sociais informações sobre infertilidade e doenças relacionadas, como a endometriose. O objetivo era dividir o que havia aprendido em sua própria trajetória, levar informação e incentivar outras pessoas a não desistirem. Com o tempo, porém, ela percebeu que poderia ir além do acolhimento de quem enfrentava a mesma situação.

“Eu comecei a compartilhar no meu Instagram sobre a infertilidade, sobre doenças relacionadas, endometriose, sempre buscando trazer informação, sempre buscando trazer esperança. […] A gente pensou: vamos ajudar mais, mais do que um colo, mais do que as pessoas lerem e escutarem. Vamos ir além, fazer ações, mobilizar mais gente para conseguir arrecadar dinheiro e pagar o tratamento desses casais”, explicou.

Como funciona o N.Tentativas

O projeto é um dos braços do Instituto Maragata, organização fundada em 2011 para desenvolver ações sociais voltadas à infância e às famílias. Com o passar dos anos, a instituição também passou a atuar em outras áreas, como o apoio à Santa Casa de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e iniciativas relacionadas às enchentes que atingiram o estado.

No caso do N.Tentativas, os interessados podem preencher um formulário disponível no link da bio do Instagram de Nathália. O cadastro reúne informações sobre a história do casal, há quanto tempo tentam engravidar e a cidade onde moram. Com esses dados, o projeto organiza a demanda e busca clínicas e profissionais parceiros para realizar o atendimento.

A rede de parceiros está distribuída em diferentes regiões do Brasil, o que permite encaminhar os pacientes para serviços mais próximos de suas casas, sem exigir que todos se desloquem até São Paulo. O projeto também busca profissionais dispostos a contribuir com o trabalho social, seja por meio da doação de procedimentos ou pela redução dos custos.

“Qualquer casal pode se inscrever no link da minha bio do Instagram. Ali tem um formulário para saber um pouco da história, quanto tempo estão tentando e de onde é esse casal. Eu recebo todos esses formulários, e aí tem uma lista que é gigantesca, que não para de crescer”, explicou Nathália.

Ela destacou que a fila avança à medida que o projeto consegue arrecadar recursos. “Vou pegando quando chega a hora, a lista vai andando, eu vou chamando e busco uma clínica parceira ali na região do casal. Então, a gente tem clínicas parceiras no Brasil todo. O casal não precisa se deslocar até São Paulo. Eu procuro uma clínica de referência, uma clínica em que eu confiaria para fazer o tratamento, e busco médicos e clínicas que entendam também o valor social, que possam ajudar e doar ou diminuir um pouco o preço”, disse.

A definição do tratamento, porém, depende de uma avaliação médica individual. Nem todos os casais precisam necessariamente realizar uma fertilização in vitro. Após a seleção social feita pelo Instituto Maragata, os pacientes são encaminhados aos profissionais parceiros, que avaliam o histórico, os exames e as necessidades clínicas para indicar a conduta adequada.

Um dos médicos que participa da iniciativa é Matheus Roque, especialista em reprodução assistida, que contribui por meio da doação de tratamentos. Para ele, o trabalho do projeto ajuda a aproximar os avanços da medicina de pessoas que, de outra forma, não teriam acesso a esses recursos.

“O Projeto N.Tentativas, por meio do Instituto Maragata, realiza um trabalho muito bonito, permitindo que pessoas que não têm condições financeiras de custear tratamentos de reprodução assistida possam ter acesso a eles. O Instituto é responsável pela captação de recursos e pela seleção dos pacientes, que posteriormente são encaminhados para médicos e clínicas parceiras”, explicou.

O especialista afirma que, após o encaminhamento, cada caso é analisado individualmente. “Avaliamos o histórico de infertilidade, a idade, os exames já realizados, os tratamentos anteriores e, quando necessário, solicitamos exames complementares. O objetivo é identificar a causa da infertilidade e definir qual é a melhor conduta para aquele casal”, afirmou.

Matheus também ressalta que procurar um especialista não significa, necessariamente, iniciar um tratamento de alta complexidade. “Nem todos os pacientes com dificuldade para engravidar precisam necessariamente de uma fertilização in vitro. Nossa responsabilidade é oferecer a melhor orientação médica, com base nas evidências científicas, e indicar o tratamento quando ele realmente for necessário e adequado”, disse.

Tratamentos podem custar até R$ 40 mil por tentativa

O valor de um tratamento varia conforme a região, a clínica e as necessidades de cada paciente. Segundo Matheus, um ciclo de fertilização in vitro na rede particular pode custar entre R$ 20 mil e R$ 40 mil, incluindo os medicamentos. Além disso, nem sempre uma única tentativa resulta em gravidez, o que pode elevar ainda mais os gastos de quem precisa recorrer ao procedimento.

A fertilização in vitro envolve várias etapas. O processo geralmente começa com a estimulação dos ovários por medicamentos hormonais, seguida da coleta dos óvulos, feita sob sedação e guiada por ultrassom. Em laboratório, os óvulos são fertilizados com os espermatozoides e os embriões passam por um período de desenvolvimento antes de serem transferidos para o útero. O procedimento aumenta as chances de gravidez em determinados casos, mas não garante o sucesso.

O especialista lembra ainda que a infertilidade pode ter causas femininas, masculinas, combinadas ou, em alguns casos, não identificadas mesmo após investigação. Entre os fatores que podem afetar a fertilidade feminina estão alterações na ovulação, obstruções das trompas, endometriose e questões ligadas à idade. Nos homens, as alterações podem envolver a produção, quantidade, mobilidade e qualidade dos espermatozoides.

De acordo com Matheus, o fator masculino participa de uma parcela importante dos casos, isoladamente ou junto com fatores femininos. Por isso, a investigação deve ser feita com os dois integrantes do casal.

A recomendação é que mulheres com menos de 35 anos procurem avaliação após 12 meses de tentativas regulares sem uso de contraceptivos. A partir dos 35 anos, o prazo cai para seis meses. Para mulheres acima dos 40 anos, a orientação é buscar avaliação sem demora. Em situações como ciclos menstruais muito irregulares, endometriose, histórico de cirurgias ovarianas ou suspeita de alterações nas trompas ou na fertilidade masculina, a investigação pode ser indicada antes desses períodos.

“A infertilidade não escolhe classe social. Ela pode atingir qualquer pessoa, independentemente da sua condição financeira. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas enfrentará a infertilidade ao longo da vida”, afirmou o médico.

Para Matheus, o custo dos procedimentos mostra a importância de iniciativas que ampliem o acesso aos tratamentos. “Para muitas famílias, o custo de uma fertilização in vitro representa uma barreira praticamente impossível de superar. Por isso, considero o trabalho realizado pelo Instituto Maragata e pelo Projeto N.Tentativas tão importante. O Instituto mobiliza pessoas, doadores e profissionais para transformar recursos e solidariedade em oportunidades reais de tratamento”, disse.

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